In memorian de Marcos Leite (1953-2004)

Nestor de Hollanda Cavalcanti


Marcos e Nestor na estréia da Garganta na CAL.
Bairro de Laranjeiras, Rio de Janeiro (1985)

    A idéia de ter um diretor musical num coral à parte do regente, é obra da cabeça criativa de Marcos Leite. Eu jamais quis exercer esta função. Achava ainda que o coral já tinha seu diretor musical, que era o próprio regente. Não precisava de mais um. Mas, o Marcos não pensava assim. Gostava de uma parceria e fez questão de fazê-la comigo, mesmo quando quis me esquivar. Não regendo, nem cantando, inventava, criava. Então, compus, fiz arranjos, roteiros, dirigi gravaçõoes, shows, estabeleci estratégias de atuação. Ele me dizia que eu era o ouvido externo do coral.
    Sou tímido, quem me conhece sabe disto. Adoro o público e ver meus trabalhos sendo apresentados. Mas, o público e os trabalhos lá e eu cá, de preferência, incógnito. Fujo dos assédios e sempre detestei aparecer em televisõoes ou rádio. Abri algumas exceçõoes para os jornais, apenas. Ele sabia disso, pois a nossa amizade vinha de muitos anos. Por causa disso, tínhamos alguns tratos entre nós, principalmente na Garganta. Combinamos que, toda vez que fosse necessário aparecer na TV ou em rádio, era ele quem se faria presente, dando entrevistas e tal. Mas eu não. Ficaria à parte, nas coxias, na rua, em casa - gravando para arquivo os programas, em qualquer lugar menos em público. E assim era feito. Tenho várias fitas com programas de rádio que a Garganta participou até o ano da minha saída. Um desses programas foi o do Cesar de Alencar na Rádio Nacional, que já não era mais o mesmo de antes, mas continuava com o seu "Alô, alô, alô" ("Essa canção nasceu pra quem quiser cantar"...). Por isso, acho que apenas uma única vez estivemos juntos diante de um microfone ou de uma câmera. Foi em Petrópolis que aconteceu uma entrevista nossa numa rádio da qual não pude escapar. Ele me convenceu a ir. Contra a vontade, fui. Detestei e lhe pedi para não repetir. Fui atendido e Marcos, em suas entrevistas, arranjava sempre uma desculpa pelo fato de eu não estar presente.
    Durante o período que trabalhamos juntos, rolou muito papo entre nós, muita troca de idéias. Nós nos afinávamos bastante, apesar das diferenças de temperamento e de várias divergências no modo de pensar. Andávamos muito juntos. Marcos estava sempre bem humorado e contrastava com a minha cara fechada. Lembro-me de que, nos primórdios do grupo, quando uma das cantoras da Garganta ficou sabendo quem eu era, comentou:
    - Eu o imaginava de forma completamente diferente...
    Perguntei:
    - Achava que eu era meio doidão por causa das minhas músicas?
    - É - respondeu, meio sem jeito.
    E concluiu.
    - Você não parece ser o compositor dessas músicas...
    Marcos estava presente e veio em minha "defesa".
    - Ele não parece, mas é completamente doido!
    Foi um elogio. Ele, não parecia e era completamente doido, "doido" pelos amigos e "doido" por música, música boa.
    Era quase que completamente surdo de um dos ouvidos - não sei se o direito ou esquerdo. Quando estávamos juntos, lado a lado, perguntava sempre se aquele era o ouvido bom para poder me posicionar. Apesar disso, tinha ouvido absoluto que também contrastava com o meu, relativíssimo (posso, "numa boa", fazer uma escala de dó maior partindo de qualquer som...). Brincava com ele, dando petelecos em postes, copos etc. e perguntando que nota era.
    - Mi bemol - respondia na agulha. Mas, está um pouco baixo.
    Talvez não fosse, mas não tem importância. Impressionava quem estava ao redor!
    Escrevia seus arranjos de maneira simples e objetiva. E eles funcionavam muito bem. Tocava um piano sem virtuosismo, mas com uma sensibilidade rara. Acompanhava muito bem, criava com facilidade e improvisava que era uma beleza. Não como um pianista de jazz, mas de forma prática. Durante os shows, "enchia" com seu piano todos os possíveis buracos criados por quaisquer imprevistos - demora na entrada de uma música, por exemplo. Tinha excelente noção do ritmo de um espetáculo. Tocava violão e acordeão. Cantava com facilidade, embora tivesse alguma rouquidão devido ao cigarro. Na falta da entrada de alguma voz numa música, entrava cantando e cobrindo os espaços. Sempre pedia um microfone sobre o piano para voz.
    Marcos Leite foi um dos maiores regentes de coro do país. É preciso tê-lo visto nos ensaios, preparando os coros, deixando-os inteiramente à vontade, dirigindo e formando os naipes, inventando os exercícios, dançando enquanto regia e também se divertia com isso. É preciso ter visto os cantores sob a sua regência, cantando soltos, se expressando livremente com alegria e criatividade. É preciso ter visto os corpos e as faces dos cantores em cena. É preciso ter ouvido o som de um coral com Marcos Leite à frente, com toda a vivacidade, todo calor, toda a emoção. É preciso ter ouvido as vozes cantar as obras originais, os arranjos: era música! É preciso ter estado lá, ao vivo.
    Nã o comecei a compor para coro por causa do Marcos. Antes de trabalhar com ele, já fizera algumas obras - como O Morcego e Peça de Confronto (Descontraído). Mas, certamente, foi por causa dele e dos seus grupos que desenvolvi uma obra coral. Por estímulo dele, comecei a fazer arranjos. Não somente o estímulo do tipo "faça isto" ou "faça aquilo", não. Digo o estímulo de presenciar um trabalho composto por mim ser verdadeiramente realizado. Com Cobras e Lagartos começou uma parceria que durou cerca de sete anos. Ele foi, certamente, um dos meus maiores intérpretes.
    Sim, leitor, Marcos Leite foi também um dos maiores regentes de coro do país, e muito mais: a figura do canto coral mais importante do final do século XX no Brasil. Sem mais, nem menos.
    Estivemos em sua missa de sétimo dia, em 19 de janeiro de 2002, na Igreja da Divina Providência, no bairro do Jardim Botânico, Rio de Janeiro. Eu e Míriam, mais o Paulo Jorge e Ângela, que nos levaram. A igreja estava abarrotada. Chegamos atrasados, perdemos muita coisa, mas chegamos a ponto de ouvir o grande coro de ex-coralistas dele, regido por Regina Lucatto que, levantando a voz para os céus, levava, como nunca, o Você vai me seguir. A igreja estava completamente emocionada.
    Chorei.
    A você leitor, que está lendo estas linhas agora, quero dizer que agradeço a meu Deus toda experiÍncia que adquiri com os corais que participei como compositor, arranjador e diretor musical, e, também, o privilégio de ter trabalhado com Marcos Leal Leite.
    Saudades.

    Rio, 11 de março de 2003

    (in: Memórias de um compositor de milícias - texto em andamento)

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